Fome – Roxane Gay

Ler Fome é horrível. E é libertador. Desperta sentimentos muito variados, que certamente terão muito mais a ver com as experiências pessoais de cada mulher. Por que é isso. Eu desconheço mulheres que não tenham uma história pessoal de terror para contar envolvendo pelo menos um homem. E desconheço mulheres gordas que não tenham questões emocionais por trás do peso. Esse é daqueles livros que ninguém gostaria que existisse. Mas que precisam existir.

Nesta autobiografia, Roxane Gay fala sobre como, após sofrer um abuso sexual aos doze anos, passou a utilizar seu próprio corpo como um esconderijo contra os seus piores medos. Ao comer compulsivamente para afastar os olhares alheios, por anos Roxane guardou sua história apenas para si. Até conceber este livro. Esta não é uma narrativa bem-sucedida de perda de peso. E este também não é um livro que Roxane gostaria de escrever. Entretanto, é uma história que precisa ser contada, e ela o faz com seu estilo contundente e impetuoso, ainda que dotado de um humor mordaz, características que a tornaram uma das vozes mais marcantes de sua geração. “Fome” é um relato ousado, doloroso e arrebatador.

Fome é um livro que precisa existir.

Fome narra a história de muitos abusos sexuais, psicológicos que a autora viveu. Na adolescência e na vida adulta. Narra as consequência do abuso na adolescência principalmente. E muitas mulheres irão entender o que aconteceu com elas nessa leitura. Há muita sabedoria em conhecer a história de uma sobrevivente. Nós mulheres nos fortalecemos umas nas outras. Roxane narra sua história e nós navegamos por ela, cavamos o fundo do poço com ela e iniciamos a escalada das paredes do poço com os dedos em carne viva, com ela. E isso me faz ter certeza que muitas abandonaram a leitura desse livro no meio do caminho. Pois há momentos em que se torna quase insuportável. E se fosse uma ficção, você imploraria: alguém ajude essa moça! Mas a arte nunca passa de mera reprodução apagada da intensa realidade.

Há o antes e o depois. No depois, eu fiquei partida, estilhaçada e calada. Fiquei anestesiada. Aterrorizada. Eu guardava esse segredo e sabia, em minha alma, que o que aqueles meninos fizeram comigo tinha de permanecer em segredo. Eu não podia compartilhar a vergonha e a humilhação daquilo. Eu era repulsiva, pois havia permitido que coisas repulsivas fossem feitas comigo. Eu não era uma menina. Eu era menos que humana. Eu não era mais uma boa menina e iria para o inferno.

(GAY, 2017, p. 45)

Fome narra como Roxane Gay engordou. A pergunta nunca feita nos consultórios médicos. A questão central ignorada por personal trainers, nutricionistas e toda essa mídia. Não é sobre comida, nunca foi. O filme O Mínimo para Viver (To The Bone, no original), disponível na Netflix, deu a pista. Um corpo gordo, um corpo magro, um corpo musculoso, um corpo como quer que ele seja. O corpo reflete a mente. “O corpo é o inconsciente visível.” disse Wilhelm Reich. E quando entendemos isso, não apenas na mente, mas no nosso próprio corpo, tudo muda. O respeito pelo corpo aumenta. O corpo, nosso e do próximo, passa a ser um templo. O corpo deixa de ser um objeto a mostra, passa a ser uma extensão do eu.

Em Fome, Roxane Gay mostra como o abuso e a necessidade de proteção resultaram no corpo gordo. Corpo gordo esse que é essencial para a saúde mental dela. Para a sobrevivência dela. E é sobre isso que esse livro trata: sobre sobrevivência. Sobre o que somos capazes de fazer para sobreviver. Roxane Gay sobreviveu. E esse livro comemora sua sobrevivência.

GAY, Roxane. Fome: uma autobiografia do (meu) corpo. São Paulo: Globo, 2017. 270 p. Tradução de Alice Klesck.