Coragem para Viver – Marcelo Cezar

Minha opinião sobre o livro Coragem de Viver, ditado por Marco Aurélio e psicografado por Marcelo Cezar, no Blog do Grupo de Divulgação da Doutrina Espírita (GruDDE).

GruDDE

Tem gente que ainda acredita que o sofrimento é necessário para o crescimento interior, que, sem sofrimento, a vida não vale a pena, não tem significado. Isso é herança de uma tradição católica muito forte que ainda temos em nossa sociedade. A culpa, o pecado e a dor ainda fazem parte do nosso imaginário de purificação para alcançar o reino dos céus, no caso, o mundo espiritual.”(Leda, no livro Coragem para Viver)

Título: Coragem para Viver
Psicografia: Marcelo Cezar
Ditado por Marco Aurélio
Editora: Vida & Consciência
Páginas: 416
Ano: 2015

Sinopse:Você tem ideia de como você se vê? Já parou para refletir sobre suas crenças a respeito de amor, trabalho, relacionamento, dinheiro, família e sexo?
É bom saber que tudo em que você crê vira a sua realidade. A vida materializa as suas crenças por certo tempo, para que você experimente situações e possa avaliar…

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Padrões

Vivemos e somos construídos socialmente através de padrões: de comportamento, de aparência, de posses, de ser. E seria maravilhoso se todos nós pudéssemos facilmente atingir os padrões. Uma linha clara, objetiva, conduzindo-nos à perfeição suprema. Bastando querer, pois querer é poder – é o que dizem.

Querer pode ser poder, mas nem tudo que queremos é bom para nós.

E o problema começa quando nem todos nós podemos alcançar esse padrão maravilhoso e idealizado. O cenário fica pior quando a maioria não pode, ou precisa pagar um auto custo para poder. Como muitas mulheres (a maioria que eu conheço) eu passei a vida toda tentando entrar no padrão, e me odiando por nunca conseguir “chegar lá”. No livro Fazendo as Pazes com o Corpo, da Daiana Garbin (falei dele aqui), ela conta toda a trajetória dela e os danos causados pela ideia de alcançar o “padrão”. E a impossibilidade de “chegar lá”. A gente simplesmente nunca “chega lá”.

Desconstrução é entender que não dá para “chegar lá”, e tudo bem, pois tem uma infinidade de caminhos por aqui mesmo. Desconstrução não é um novo padrão ou regra, é dizer que não há regras. Você deixa de comparar cada parte de si com o “padrão” e volta seu olhar para si mesmo. Você abandona os diálogos como: “O cabelo dela é mais bonito”, “meus cachos são feios e volumosos”, “eu preciso ter cabelo longo pois homens gostam de mulheres com cabelos longos”. Essa última frase ainda vem com com um brinde: machismo. No processo de desconstrução, nós mudamos as frases para “nossos cabelos são lindos”, “meus cachos são maravilhosos e cheios de personalidade”, “meu corte de cabelo interessa apenas a mim, eu tenho que estar feliz com meu cabelo”.

Desconstrução não significa ser obrigada a aceitar o natural. Mas envolve compreender o que gostamos e não gostamos, e o motivo que está por trás dessa “questão de gosto”. O processo de construção de padrões é tão forte, que determina até nossos parceiros e por quem sentiremos atração ou rejeição. Padrões são o suprassumo do clichê. A mulher delicada e pequena, o barbudo sexy, a mãezona, o tiozão. Nossos preconceitos estão fortemente conectados aos conceitos de padrão,  pois tudo que fugir do padrão, tá errado, é feio e deveria se ajustar.

Se o padrão é cabelo liso, escorridos, todo cabelo diferente desse, como ondulados, cacheados e crespos, são considerados feios (quanto mais longo do padrão, pior, então o ondulado não é tão feio quanto o cacheado que é menos pior que o crespo – esse último chegou a cúmulo de ser apelidado de “cabelo ruim”, um absurdo sem igual!). E deve se ajustar – todo mundo alisando os fios como se não houvesse amanhã, ignorando danos à estrutura capilar, aliás o alisamento só ocorre se houver dano, e danos à saúde, quem não se lembra do formol? Se o padrão é ser alto, quanto mais baixo, mais feio. Se o padrão é ser magro, quanto mais gordo mais feio. Qualquer que seja o padrão, quanto mais longe do padrão, mais feio você é considerado. É por isso que mulheres querem ser loiras, altas e magras e homens querem ser altos (mais que as mulheres), sarado e barbudo (moda atual).

Mas olhe à sua volta e conte nos dedos – de uma mão provavelmente – quantas pessoas estão naturalmente dentro do padrão? Eu conheço umas duas. E elas também estão insatisfeitas, pois o padrão é inalcançável até mesmo para quem teoricamente esta dentro dele. Quantas mulheres que você conhece vivem de dieta? Quantas vivem maquiadas? Algumas mulheres acordam antes dos seus parceiros apenas para ajeitar o cabelo, escovar os dentes e se maquiar – para “acordar linda”.

O padrão criado e apresentado na mídia não corresponde ao que vemos nas ruas, na nossa casa e provavelmente no espelho. Mas é o padrão que está 24h chamando nossa atenção, com estratégias de marketing cheias de recursos e estudos psicológicos que comprovam seus resultados. Dizem que quando você está no padrão, você é feliz. Mas ninguém alcança o padrão pois sempre há algo a ser mudado, melhorado, aprimorado.

É verdade que a passos de formigas estamos vendo mais diversidade, mas esse é o resultado da luta pela representatividade, e não uma luta contra os padrões. Pois mesmo a diversidade apresentada na TV, obedece em sua maioria, aos padrões já estabelecidos. A modelo pode ser negra, mas ainda é magra e tem traços europeus. O cabelo pode ser cacheado, mas não tem frizz e é longo. A gorda aparece desde que tenha aquele corpo violão, do tipo “gostosona”. A deficiência nunca é vista. O espaço é para a beleza “exótica” e não para outras belezas.

Desconstruir verdadeiramente os padrões é parar de buscar padrões, ou talvez, seja tornar a diversidade o novo e permanente padrão. Não significa amar tudo em si mesmo ou no outro. Não é achar todo mundo lindo (embora todos sejam). É entender que a diferença é normal. Aceitar quem você é. Seu biotipo. Sua aparência. Seu jeito. Mudar o que acha que tem que ser mudado, não por imposição social, mas por desejo pessoal – e acredite, é dificílimo diferenciar o desejo pessoal da construção social.

É olhar para si mesmo e entender que nossas diferenças não nos tornam melhores ou piores. Apenas diferente. E que sermos diferentes é o que nos tornam tão interessantes. Nos apaixonamos por pessoas diferentes de nós. Somos amigos de pessoas diferentes. Amar é acolher os outros e quem somos.

 

 

Fazendo as Pazes com o Corpo, por Daiana Garbin

Título: Fazendo as Pazes com o Corpo.
Autora: Daiana Garbin
Editora: Sextante
Edição: 1º
Ano: 2017
Páginas: 168

Link para o site oficial: http://fazendoaspazescomocorpo.com.br/ 

“A insatisfação com o corpo é muito comum. E, especialmente no caso das mulheres, é incentivada pelo mercado, pela mídia e até pelas próprias mulheres. Daiana resolveu falar sobre isso. E aí você pensa: Uau, que legal, ela está curada e vai me ensinar a me curar! Não. Ela vai oferecer algo muito melhor: a verdade.” – do prefácio de TIAGO LEIFERT

Daiana Garbin passou 22 anos odiando o próprio corpo. Sentia-se eternamente inadequada, desejava ser reta, seca. Só pele e osso. Tinha vergonha de si mesma e de seu descontrole diante da comida.

Encarou dietas hiper-restritivas, passou por três cirurgias plásticas, fez procedimentos estéticos agressivos e ficou viciada em remédios para emagrecer – sempre acreditando que um corpo magro lhe traria paz e felicidade.

Foi só depois de muito sofrimento que ela descobriu que a insatisfação profunda que sentia em relação ao corpo não era vaidade nem frescura: era doença.

Diagnosticada com transtorno alimentar, Daiana decidiu compartilhar sua história para ajudar as pessoas que sofrem em silêncio por querer se enquadrar em padrões inatingíveis e acabam deixando de aproveitar a própria vida.

Neste livro, ela revela o longo caminho que percorreu para aprender a ficar em paz com seu corpo e com a comida – os altos e baixos, o que deu certo e o que deu errado, as vezes que quis desistir e o momento em que percebeu que existia uma saída.

Trazendo entrevistas com nutricionistas, psicólogos e psiquiatras, Fazendo as pazes com o corpoprovoca uma necessária discussão sobre o perigo dos transtornos alimentares, o lado nocivo das redes sociais, o padrão de beleza irreal imposto pela mídia e o papel da autocompaixão no processo de cura.

Precisamos reaprender a ser amáveis com nós mesmas. Com frequência somos gentis com os outros e cruéis conosco. Quantas vezes você disse a outra pessoa como ela é linda? Por que não consegue dizer a si mesma que é bonita,competente, forte, inteligente, que é suficiente? Trate-se com carinho, com compaixão, gentileza, amor, paciência, delicadeza, generosidade. Você não trata as pessoas que ama dessa forma? Então por que se trata com ódio, impaciência, rigidez?
Você chamaria alguém de baleia, porca, gorda, preguiçosa, sem determinação, fracassada, incapaz de conter os próprios impulsos e se controlar? Teria coragem de fazer isso? Então por que faz com você?

O que eu achei deste livro:

Uma única obra e milhares de sentimentos e sensações, lembranças e projeções se fazem presentes. Me dei esse livro pois achei que iria encontrar respostas nele. Encontrei. Mas também encontrei perguntas. Muitas perguntas. E o bom das perguntas é que, se você não sufocá-las, elas te levarão para um caminho sem volta.

A autora, Daiana Garbin, tem um canal no Youtube, o EuVejo, que é um dos meus canais prediletos pois me faz bem. Mas ainda não tinha encarado o livro. Primeiro por que intuímos quando estamos ou não prontos para algo. Segundo, por que com a correria do doutorado, não tenho tido tempo de ler algo além de artigos. Mas como decidi que minha saúde mental era importante também, estou reservando um tempo para mim.

Pessoalmente, decidi que leria esse livro, antes de muitos outros que se encontram na minha estante, pois foi um dia especialmente ruim, piorado por uma TPM que sabia o dia certo para me deixar pior. Ele me ajudou a organizar muitos pensamentos horríveis que tive em relação a mim mesma. Então já começo muito grata, pois ele acalmou meu coração. E o mais importante, me conectou com outra história. Outra mulher. Que enfrenta o que eu enfrento. E através do livro, conversamos. E foi bom. Foi verdadeiro.

O livro divide-se em duas partes. Na primeira, Daiana relata sua jornada. Expõe suas dores e fragilidades. Vulnerabiliza-se para o olhar alheio, e me tocou muito essa coragem. Ela fala da construção da autoimagem, da relação doentia com a comida, sua obsessão por um corpo “perfeito”, a impossibilidade de alcançar esse corpo perfeito, independente do que se faça. Através dos relatos dela, me lembrei da minha própria história. De como essa  permanente insatisfação, essa permanente vergonha e sensação de fracasso nos rouba momentos e oportunidades da vida e passa a conduzir nossos passos e ações em prol de “quando ficarmos bonitas”, adiando a felicidade de viver o hoje.

Na segunda parte, Daiane continua sua jornada, agora compartilhada com todas nós. “Nossa Luta”. Ela inicia a desconstrução das crenças que a machucavam e aprisionavam. Uma jornada que continua. Nesse processo, ela fez o que fazemos quando precisamos enfrentar um desafio: estudou, buscou ajuda, perguntou, se frustrou e persiste até hoje enfrentando. Compreender o que acontece conosco exige esse aprendizado. Conhecer o inimigo, diriam os estrategistas. Identifica e compreender as pressões externas, essas garras invisíveis que se fincam em nossas almas e nos acorrentam a sentimentos horríveis sobre nós mesmos, como uma nuvem negra que nunca deixa o horizonte, numa ameaça permanente. Olhar com carinho, amor e firmeza, para nossos processos internos, como absorvemos o mundo, nossa relação com as pessoas.

Como disse Mônica Montone “Se o desafio de nossas mães e avós era queimar o sutiã em praça pública e exigir direitos iguais, o nosso, ao que tudo indica, é conseguir se amar, se aceitar e parar de se punir por não ter a imagem perfeita e plastificada das redes sociais.”

Queira ser você! Permita-se ser linda como você é. Queira ter a sua bunda, as suas pernas, o seu rosto e pare de pensar e verbalizar que eles são feios ou defeituosos. Sabe como vai aprender a gostar do seu corpo? Somente no momento em que aceitá-lo como ele é.

Veja o que outras pessoas acharam desse livro:

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Após o ataque das formigas, uma flor caiu… 😦

Eu achei que 2017 tinha sido um ano sabático. Descobri que não foi. Pelo visto só é sabático se eu não fizer nada…

Como chamarei meu ano agora?

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Eu tenho formigas na minha mesa. Elas vão me carregar daqui a pouco. Eu não como na mesa. Eu cometo um crime maior. Tenho uma flor. Uma bela orquídea. Que está sofrendo o ataque de formigas.

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Lema atual: Se a palavra é de prata, o silêncio é de ouro.

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Brasília está desidratada. Meu nariz tá desidratado. Não importa quanta água eu beba, meu nariz continua sangrando. Brasília continua seca. Parece outono de outros países.  É bonito. Mas é seca. E ainda nem estamos na seca de Brasília. Medo da seca da 2018!

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Esse final de semana eu precisarei contar todas as minhas roupas e separar o que eu uso ou não. Vou descobrir o que eu tenho no final das contas.

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O mundo tá chato… há muito tempo para as mulheres e todas as pessoas que foram e são tolhidas nos seus direitos. Mas pessoalmente to curtindo as mudanças.

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As formigas continuam atacando a minha flor. Coloquei um prato com água. Trouxe de casa alvejante para pingar na água e não dar dengue. Estragou o visual do lindo vaso de cerâmica rosa que eu comprei. Mas as formigas não vão alcançar a flor. Será que as formigas vão embora? Saiam da minha mesa, por favor. Voltem para a vida selvagem.

 

Sorria: você já é feliz! – Ricardo Orestes Forni

Sorria

 

Título: Sorria: você já é feliz!
Autora: Ricardo Orestes Forni
Editora: EME
Páginas: 224
Edição: 1ª
SINOPSE:
A proposta deste livro é simples: mostrar ao leitor quantos motivos ele tem, nessa vida, para se sentir feliz.
Para tanto, Ricardo Orestes Forni reuniu diversos contos de sua autoria, mostrando ao leitor o quanto de felicidade podemos obter ainda aqui na Terra, valorizando as coisas simples e prestando atenção em tudo que sucede ao nosso redor.
Para enriquecer ainda mais a obra, o autor encaixa em seus contos páginas de consolo e inspiração trazidas por mentores espirituais que igualmente trabalham pela harmonia do planeta. E mais: finalizando cada capítulo, uma mensagem bem curtinha, mas de grande conteúdo moral para nossa reflexão e aprendizado.
Então, boa leitura, e… SORRIA, VOCÊ JÁ É FELIZ!’
O que eu achei deste livro:
A linguagem do livro é simples e bastante fácil de acompanhar, sem palavras nem construções estranhas. O autor compôs o livro no formato de pequenas histórias cotidianas onde o autor procurou demonstrar toda a felicidade que não conseguimos enxergar quando estamos reclamando. Essas histórias são intercaladas por reflexões e poemas.
O problema é que a estrutura utilizada pelo autor foi exatamente a mesma em todas as histórias: uma pessoa reclama e a outra apresenta a lição de moral “Sorria, você já é feliz!”. Exatamente essa frase em todas as histórias. E é sempre uma mulher que apresenta essa frase. Invariavelmente. Isso significa que, ao final da primeira história do livro, você já conhecerá todas as demais. Pois a estrutura será absurdamente a mesma em todos os casos o que torna o livro cansativo sempre que chega em uma história. É uma intensa vontade de pular os capítulos das histórias.
Mas o maior pecado desse livro é a falta de qualquer coisa que marque nossa alma, que nos faça lembrar da lição, da fala, do personagem, de qualquer coisa. Para mim acabou sendo um livro que eu li e… conclui que não precisava ter lido. A título na capa basta pelo livro todo e dispensa a leitura dele.
Não gostei e não recomendaria a nenhum amigo, infelizmente.

Ser mulher em um mundo machista é assim…

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Fernando de Noronha. Foto minha.

…ser assediada antes dos 9 anos de idade, no meu caso aos 7. E ser culpada pelo assédio que sofri e sofro. Afinal que saia estou usando? Que blusa? E esse batom vermelho?

…saber que minha palavra sempre terá um valor inferior à dos que carregam o gene Y. Não importa quanto eu estude ou se trabalho bem, eu preciso me esforçar mais para obter o mesmo reconhecimento. E olha que eu trabalho em uma universidade e no serviço público, ambos locais onde o machismo vem perdendo a força, significativamente, quando comparado a outros locais, claro.

…ouvir que homens são de marte e mulheres são de vênus… logo ninguém é da Terra. Uma mesma espécie considerada tão distinta a ponto de pertencer a dois planetas diferentes, e temos que aprendemos a decodificar o que o outro quer dizer… Afinal, sinceridade para que?

…ter que dizer que tenho namorado, mesmo quando não tenho, apenas para me livrar de um homem “insistente”. E ouvir ele pedir desculpas ao namorado por ME incomodar.

…sempre pensar bem na roupa que vou vestir. Não pela ocasião, mas pelo perfil de homem que encontrarei.

…ter que aguentar calada quando homens invadem meu espaço pessoal na rua, ouvindo o quanto sou bonita ou gostosa, ou o que eles fariam comigo se pudessem “botar as mãos” em mim. E ter medo, vai que um deles resolve me perseguir, me bater ou me matar?

…ter a cabeça empurrada para o quadril do cara durante uma ficada, pois ele tem certeza que eu devo cair de joelhos na primeira oportunidade. E ser chamada de fresca e egoísta se eu não quiser fazer o oral.

…ter a mídia o tempo todo me mostrando o quanto sou imperfeita e feia. E quais os mil produtos e serviços que podem resolver isso.

…ouvir homens que me conhecem dizendo que não sabem como chegar em mulheres como eu… Nunca ocorreu a eles conversar e me conhecer melhor, saber meus gostos e sonhos.

…conversar com minhas amigas e descobrir que todas, sem exceção, já tiveram seus corpos tocados sem permissão. Que a maioria já fez sexo por que o namorado queria/forçou. E ouví-las justificando que homens “precisam” de sexo, mais do que mulheres.

…não denunciar o cara que me encoxou no ônibus, o colega que faz piadas misógenas, pois eu sei que não vai dar em nada. Reunir provas e testemunhas é difícil e estressante demais.

…é aprender que mulheres são inimigas que passam o tempo todo pensando em como roubar meu namorado. Como se meu namorado fosse um objeto que pudesse ser roubado, sem vontade, sem livre arbítrio. Uma marionete, coitado.

…é invejar a liberdade dos homens, ignorando os danos causados pelo machismo à saúde mental e emocional masculina. E gastar horas, dias, convencendo eles que se cuidar não é coisa de boiola, de fraco. E nem sempre conseguir.

…que amizade verdadeira só entre homens. Entre mulheres é falsidade, entre homens e mulheres é desejo contido.

…é voltar para casa a noite segurando as chaves de casa como se minha vida dependesse delas.

…o pânico de ouvir passos atrás, ou ver um ou mais vultos à frente. E o alívio de descobrir que é uma mulher.

…correr os olhos pelo quarto do namorado para ter certeza que ele não está gravando nossa intimidade, mesmo após meses de convivência. Slut Shaming tá na moda.

…ouvir pessoas defenderem que as “novinhas” são muito maduras. E que os homens mais velhos são “seduzidos” por elas. Pobres homens, tão indefesos.

…ler manchetes sobre a aparência das mulheres e os feitos dos homens.

…não conhecer as invenções de mulheres. Nem as heroínas da história.

A reta final

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A reta final de um mestrado é algo doloroso. Gratificante, mas doloroso.

Deve ser assim que os maratonistas se sentem quando estão chegando ao final da prova.

E quando eu falo doloroso, é doloroso mesmo! Eu tenho passado cerca de 12 horas sentada na cadeira.  Atualmente até inclui um cobertor de microfibra sobre a cadeira para ver se fica mais confortável. Eu fico sentada e encarando duas telas, um caderno de anotações que fica permanentemente aberto e, pelo menos, um livro aberto em algum lugar. O uso de duas telas facilitou demais a minha vida pois não fico abrindo e fechando a telinha minuscula do note o tempo todo enquanto faço uma citação ou analiso dados. O caderno me lembra de páginas, autores e citações… e pendências que eu ainda tenho faltando apenas seis dias para enviar para a banca meu trabalho.

A cada hora eu me levanto e estico as pernas e a coluna. Estou grata a Deus por ter tido início de LER aos vinte anos (muito game na veia) e hoje utilizar o mouse com ambas as mãos. Meus dois braços, mãos e ombros estão reclamando das horas usando o mouse, mas ao menos estou distribuindo a tensão. Para relaxar a coluna também invisto em alongamento e ler na cama esticando bem as pernas. Mas quando a noite chega é quase impossível não estar com dor de cabeça.

Ah! Eu acordo seis da manhã e meu primeiro pensamento costuma ser corrigir algum gráfico, rever alguma citação ou alguma lacuna do meu estudo. Ainda bem que quem me acorda são pássaros cantando, ao menos não é o celular.

Como se não bastasse ficar fisicamente exausta, some-se a isso a tensão de enviar para uma banca de avaliadores o fruto de dois anos de trabalho. Foram pilhas de livros lidos, centenas de artigos (apenas para a dissertação, fora os das disciplinas), questionários aplicados, entrevistas realizadas, amigos que não aguentam mais me ouvir falar de dissertação, exceto os guerreiros que estavam nessa empreitada comigo, claro!

Minha família até evita perguntar quando que eu FINALMENTE terminarei e terei tempo sobrando para curtir de novo. Honestamente, nem eu quero mais falar disso (da dissertação, não do meu tema, que eu AMO!). Mas eu não assisto mais séries quando são lançadas, perdi todos os lançamentos no cinema do último ano, quase todos dos últimos dois anos. Jogar vídeo game e ler livros que não sejam acadêmicos é uma lenda urbana na minha vida. Muito mal eu acesso o Facebook uma vez por dia e leio alguns pouquíssimos blogs que eu assino a newsletter uma vez por semana.

Nem sei se ainda sei beijar… Aff… Minha vida social, que já era fraquinha, agora é inexistente! Aliás, todos os meus amigos tem a missão de me levar para sair toda semana depois da defesa, eu preciso me divertir!

Eu já falei que são dois anos de dedicação a pesquisar um tema? E que a banca pode odiar? Pois é. Respeita o trabalho de pesquisadores que investem anos de suas vidas para compreender melhor o buraco da agulha no palheiro, seja generoso com eles.

Cada vez que minha orientadora revisa minha dissertação, ela volta com tantas correções e tarefas a fazer que eu nunca olho no dia que ela me devolve. Assisti Modern Family da última vez que enviei. Queria sorrir antes de me desesperar com o tanto de correções e apontamentos. Quanto mais se escreve, mais é preciso escrever. Seja objetivo.

Uma banca pode dizer que dois anos da minha vida foram em vão. Eu sou muito ansiosa. Cada vez que releio o que escrevo encontro novas lacunas e penso que deveria ter escrito diferente. Entendo hoje a minha primeira professora do Mestrado: “Dissertação não se termina, abandona!”. Mestre Yoda Marina (que a força esteja contigo!).

É isso. To cansada. Ansiosa. Comi tortinha de maçã do McDonalds hoje. Sou viciada nelas. Me ajudam a pensar melhor a cada mordida crocante.

Tem um pernilongo que quer me picar e eu passei Citronela para espantá-lo (odeio citronela), agora meu quarto está fedendo a citronela. Mas o pernilongo desapareceu.

Semana que vem, depois de enviar meu bebe elefante para ser dissecado pelos membros da banca (os membros da minha banca são alto nível!) eu vou deitar na cama e não vou fazer nada. Vou olhar o teto e não fazer nada. Depois eu vou ao cinema. Depois vou pegar minhas sobrinhas e ficar beijando elas até elas me mandarem parar. E eu vou continuar. E depois vou fazer maratona de Bridget Jones e Star Wars. E depois eu vou ler The Walking Dead. E depois vou terminar de ler El amor en los tiempos de cólera, que eu ainda não consegui terminar. E eu vou beber com meus amigos… algumas vezes.

Depois disso tudo já deve ser o dia de defender meu bebê.

Dores do corpo e dores da alma

Estar encarnada em um mundo de provas e expiações tem disso de doer. Tem hora em que o corpo dói. Tem horas em que a alma dói.

E que não se façam o absurdo de comparar as dores.

Para a dor no corpo há analgésicos. Presentinhos de Deus embalados pelo homem em alumínio e plástico.

Para as dores da alma resta esperar que o tempo faça aquilo em que ele é o melhor: curar.

E quando não inebria?

4

Existem pessoas inebriantes. Aqueles que te preenchem os sentidos como um salto de pára quedas. Quase um soco no estômago. Forte e intenso, como uma boa caipirinha.

Mas, ás vezes, não inebria.

De forma suave a presença do outro te envolve. Dia a dia. Aula a aula. A palavra gentil e educada. A firmeza no posicionamento. O sorriso difícil de se revelar, o elogio discreto e sincero.

É assustador. Sem a pancada de se inebriar na pessoa, no cheiro e na presença, uma hora você se dá conta de que, em algum momento da convivência algo mudou e você não se deu conta. Sem aviso. Sem proteção. Sem salvaguardas.

De repente você olha sua estante e se dá conta que comprou livros apenas por que ele recomendou (ou escreveu). Percebe que leu trabalhos apenas por que relacionavam-se a ele. Sem se dar conta passou a manter ele em seu radar. Ali, no canto da mente, num lembrete delicado e discreto.

E em um dia sem querer, fora do lugar comum de vocês, você o olha e se dá conta do quão sexy ele é, e deseja ardentemente tocá-lo. Você pensa que talvez seja só a bebida, talvez seja só o ambiente relaxado, talvez seja só a solidão de quem está sozinha. Talvez seja tudo isso acumulado. Mas deixar o profissionalismo de lado e tocá-lo se torna mais sedutor que tudo.

Ele não é o ser mais desenvolto socialmente. Tem uma franqueza que chegar a ser rude. E uma muralha da China sobre a vida pessoal. Ele raramente relaxa.

E então você descobre que ele é macio e confortável. O tipo de homem para se deitar nos braços e falar besteira. Como um bom vinho, que se toma durante o jantar. Que ele cheira a boas lembranças. Ele não é um soco no estômago, mas um abraço envolvente onde se deseja ficar.

E é ele quem se afasta.

Hora de voltar ao lugar comum.