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Dores do corpo e dores da alma

Estar encarnada em um mundo de provas e expiações tem disso de doer. Tem hora em que o corpo dói. Tem horas em que a alma dói.

E que não se façam o absurdo de comparar as dores.

Para a dor no corpo há analgésicos. Presentinhos de Deus embalados pelo homem em alumínio e plástico.

Para as dores da alma resta esperar que o tempo faça aquilo em que ele é o melhor: curar.

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E quando não inebria?

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Existem pessoas inebriantes. Aqueles que te preenchem os sentidos como um salto de pára quedas. Quase um soco no estômago. Forte e intenso, como uma boa caipirinha.

Mas, ás vezes, não inebria.

De forma suave a presença do outro te envolve. Dia a dia. Aula a aula. A palavra gentil e educada. A firmeza no posicionamento. O sorriso difícil de se revelar, o elogio discreto e sincero.

É assustador. Sem a pancada de se inebriar na pessoa, no cheiro e na presença, uma hora você se dá conta de que, em algum momento da convivência algo mudou e você não se deu conta. Sem aviso. Sem proteção. Sem salvaguardas.

De repente você olha sua estante e se dá conta que comprou livros apenas por que ele recomendou (ou escreveu). Percebe que leu trabalhos apenas por que relacionavam-se a ele. Sem se dar conta passou a manter ele em seu radar. Ali, no canto da mente, num lembrete delicado e discreto.

E em um dia sem querer, fora do lugar comum de vocês, você o olha e se dá conta do quão sexy ele é, e deseja ardentemente tocá-lo. Você pensa que talvez seja só a bebida, talvez seja só o ambiente relaxado, talvez seja só a solidão de quem está sozinha. Talvez seja tudo isso acumulado. Mas deixar o profissionalismo de lado e tocá-lo se torna mais sedutor que tudo.

Ele não é o ser mais desenvolto socialmente. Tem uma franqueza que chegar a ser rude. E uma muralha da China sobre a vida pessoal. Ele raramente relaxa.

E então você descobre que ele é macio e confortável. O tipo de homem para se deitar nos braços e falar besteira. Como um bom vinho, que se toma durante o jantar. Que ele cheira a boas lembranças. Ele não é um soco no estômago, mas um abraço envolvente onde se deseja ficar.

E é ele quem se afasta.

Hora de voltar ao lugar comum.

Quando?

Em que momento o respeito e a admiração se tornaram esse bem querer?

Quando foi que o bem querer se transformou em atração?

Relacionamentos à distância

frustracao urso (1)
She’s just a girl and she’s on fire
Hotter than a fantasy, longer like a highway
She’s living in a world and it’s on fire
Feeling the catastrophe, but she knows she can fly away (…)
This girl is on fire (…)
Nobody knows that she’s a lonely girl, and it’s a lonely world. 
But she gon’ let it burn, baby, burn, baby…
(Alicia Keys, Girl on Fire).

O mundo é tão solitário. Enormemente povoado de pessoas que simplesmente não querem saber. Não estão interessadas. E eu não acredito em relacionamentos à distância. São frustrantes, impessoais, imaginários. Cadê o colo, o toque, o beijo, aquela encoxada safada, o carinho, o abraço reconfortante, as palavras ditas olhos nos olhos? Cade? Tá tudo apenas na nossa cabeça. Revirando, iludindo, piorando ou melhorando conforme nosso humor/hormônios.

Tá bem, tlvez eu não acredite em relacionamentos para ser mais exata, mas isso é um problema entre meu psicólogo e eu. Sim eu sou cética e pessimista quando se trata de relacionamentos amorosos. E otimista e crente quando são amizades. Só que independente de acreditar ou não, quem nunca conheceu uma pessoa mega interessante que mora a KM de distância? Eu já conheci e conheço. Minha amiga e irmã do coração mora em Fortaleza. E nossa comunicação é por meio de precárias, emocionais e deliciosas cartas e e-mails apressados. Por amor a ela eu mantenho esse frustrante amizada à distância, simplesmente porque não quero que acabe. Eu tentei namorar à distância há uns anos, mas minha ansiedade falou mais alto e mandei tudo pro espaço.

As vezes acho que sou covarde no amor. Eu enfrento tudo que for necessário no trabalho, nos estudos. Ralo, me dedico, passo noites em claro. Por que? Simples, eu sei que todo esforço será recompensado. Eu sou prova disso. Mas quando os sentimentos entram em jogo, eu sempre viro a garotinha medrosa e trêmula que tem medo de brisa. Tem área mais complicada? O retorno do investimento não é garantido! Não existem estratégias vencedoras. Tem apenas esse obscuro feeling. E outra pessoa tendo a chance de cuidar ou não do seu coração, conforme sua vontade.

Hoje assistindo um episódio aleatório de Glee um dos personagens falou uma verdade que me bateu fundo. Foi algo como “Num relacionamento à distância nenhum dos dois está tendo o que precisa”. Talvez esses relacionamentos funcionem para as pessoas que conseguem sublimar a necessidade do outro. Da pele e do cheiro. Da voz, dos sons, dos ruídos, dos passos. Mas eu não consigo. Preciso de todo o ambiente físico proporcionado pelos relacionamentos. Meu feeling não funciona à distância. Mas a ansiedade funciona que é uma beleza.

Não, eu não fico lendo nas entrelinhas. Não, eu não fico imaginando, criando filminhos na minha cabeça. Não, eu também não tenho crises de ciúme doentio. Não, eu também não falo pelas entrelinhas. Sim, eu detesto invadir o espaço pessoal alheio. Sim, eu sei que sou covarde.

Por que escrever tudo isso? Por que eu PRECISO convencer meu coração dessa realidade. Que relacionamentos à distância não dão certo. Por que fiz merda. E como diz minha mãe: nunca jogue titica para cima por que cai na sua cara. E to aqui agora. Fazendo o que eu recomendei a todas as minhas amigas, colegas e etc a não fazerem.

A Isabela Freitas pensa diferente de mim. É uma beleza essa diversidade de opiniões. E recomendo a leitura da opinião dela.

Nós somos simplesmente diferentes demais.

Nosso caminhos nunca teriam se cruzados,

não fosse pelo gosto sádico do destino

de apresentar a pessoa perfeita no momento mais imperfeito

e na vida mais imperfeita.

Nós somos simplesmente diferentes demais.

Você riria se soubesse

Dos pensamentos insanos das possibilidades

Nós falamos. Acertamos. Combinamos.

E eu não to seguindo o acordo.

E eu sei como vai acabar.

Eu simplesmente sei como vai acabar.

E ainda assim não quero voltar atrás.

Não quero parar.

E quando tudo acontecer exatamente como sei que vai acontecer.

Eu vou olhar para trás e lembrar:

Que nós dois somos simplesmente diferentes demais.

Despir-se

despida

So close no matter how far, couldn’t be much more from the heart, forever trusting who we are, and nothing else matters. Never opened myself this way, life is ours, we live it our way. All these words I don’t just say, and nothing else matters. Metallica (Nothing Else Matters)

Ele teve essa vantagem. Meu corpo o desejou antes mesmo que meu cérebro conseguisse agir. Me expus como nunca imaginei que faria em minha vida. Emocionalmente. Fisicamente. E me confortei com isso. E adorei a sensação de muros abaixo e estar nua frente a ele. E seu olhar me confortou. Ele não se chocou com o que viu. Não me julgou. Seus olhos pareciam estar sempre interessados. Curiosos. E com isso vou me despindo mais e mais. Até que só reste eu.

Imagem: Minha Essencia.