Padrões

Vivemos e somos construídos socialmente através de padrões: de comportamento, de aparência, de posses, de ser. E seria maravilhoso se todos nós pudéssemos facilmente atingir os padrões. Uma linha clara, objetiva, conduzindo-nos à perfeição suprema. Bastando querer, pois querer é poder – é o que dizem.

Querer pode ser poder, mas nem tudo que queremos é bom para nós.

E o problema começa quando nem todos nós podemos alcançar esse padrão maravilhoso e idealizado. O cenário fica pior quando a maioria não pode, ou precisa pagar um auto custo para poder. Como muitas mulheres (a maioria que eu conheço) eu passei a vida toda tentando entrar no padrão, e me odiando por nunca conseguir “chegar lá”. No livro Fazendo as Pazes com o Corpo, da Daiana Garbin (falei dele aqui), ela conta toda a trajetória dela e os danos causados pela ideia de alcançar o “padrão”. E a impossibilidade de “chegar lá”. A gente simplesmente nunca “chega lá”.

Desconstrução é entender que não dá para “chegar lá”, e tudo bem, pois tem uma infinidade de caminhos por aqui mesmo. Desconstrução não é um novo padrão ou regra, é dizer que não há regras. Você deixa de comparar cada parte de si com o “padrão” e volta seu olhar para si mesmo. Você abandona os diálogos como: “O cabelo dela é mais bonito”, “meus cachos são feios e volumosos”, “eu preciso ter cabelo longo pois homens gostam de mulheres com cabelos longos”. Essa última frase ainda vem com com um brinde: machismo. No processo de desconstrução, nós mudamos as frases para “nossos cabelos são lindos”, “meus cachos são maravilhosos e cheios de personalidade”, “meu corte de cabelo interessa apenas a mim, eu tenho que estar feliz com meu cabelo”.

Desconstrução não significa ser obrigada a aceitar o natural. Mas envolve compreender o que gostamos e não gostamos, e o motivo que está por trás dessa “questão de gosto”. O processo de construção de padrões é tão forte, que determina até nossos parceiros e por quem sentiremos atração ou rejeição. Padrões são o suprassumo do clichê. A mulher delicada e pequena, o barbudo sexy, a mãezona, o tiozão. Nossos preconceitos estão fortemente conectados aos conceitos de padrão,  pois tudo que fugir do padrão, tá errado, é feio e deveria se ajustar.

Se o padrão é cabelo liso, escorridos, todo cabelo diferente desse, como ondulados, cacheados e crespos, são considerados feios (quanto mais longo do padrão, pior, então o ondulado não é tão feio quanto o cacheado que é menos pior que o crespo – esse último chegou a cúmulo de ser apelidado de “cabelo ruim”, um absurdo sem igual!). E deve se ajustar – todo mundo alisando os fios como se não houvesse amanhã, ignorando danos à estrutura capilar, aliás o alisamento só ocorre se houver dano, e danos à saúde, quem não se lembra do formol? Se o padrão é ser alto, quanto mais baixo, mais feio. Se o padrão é ser magro, quanto mais gordo mais feio. Qualquer que seja o padrão, quanto mais longe do padrão, mais feio você é considerado. É por isso que mulheres querem ser loiras, altas e magras e homens querem ser altos (mais que as mulheres), sarado e barbudo (moda atual).

Mas olhe à sua volta e conte nos dedos – de uma mão provavelmente – quantas pessoas estão naturalmente dentro do padrão? Eu conheço umas duas. E elas também estão insatisfeitas, pois o padrão é inalcançável até mesmo para quem teoricamente esta dentro dele. Quantas mulheres que você conhece vivem de dieta? Quantas vivem maquiadas? Algumas mulheres acordam antes dos seus parceiros apenas para ajeitar o cabelo, escovar os dentes e se maquiar – para “acordar linda”.

O padrão criado e apresentado na mídia não corresponde ao que vemos nas ruas, na nossa casa e provavelmente no espelho. Mas é o padrão que está 24h chamando nossa atenção, com estratégias de marketing cheias de recursos e estudos psicológicos que comprovam seus resultados. Dizem que quando você está no padrão, você é feliz. Mas ninguém alcança o padrão pois sempre há algo a ser mudado, melhorado, aprimorado.

É verdade que a passos de formigas estamos vendo mais diversidade, mas esse é o resultado da luta pela representatividade, e não uma luta contra os padrões. Pois mesmo a diversidade apresentada na TV, obedece em sua maioria, aos padrões já estabelecidos. A modelo pode ser negra, mas ainda é magra e tem traços europeus. O cabelo pode ser cacheado, mas não tem frizz e é longo. A gorda aparece desde que tenha aquele corpo violão, do tipo “gostosona”. A deficiência nunca é vista. O espaço é para a beleza “exótica” e não para outras belezas.

Desconstruir verdadeiramente os padrões é parar de buscar padrões, ou tornar a diversidade o padrão. Não significa amar tudo em si mesmo ou no outro. Não é achar todo mundo lindo (embora todos sejam). É entender que a diferença é normal. Aceitar quem você é. Seu biotipo. Sua aparência. Seu jeito. Mudar o que acha que tem que ser mudado, não por imposição social, mas por desejo pessoal – e acredite, é dificílimo diferenciar o desejo pessoal da construção social.

É olhar para si mesmo e entender que nossas diferenças não nos tornam melhores ou piores. Apenas diferente. E que sermos diferentes é o que nos tornam tão interessantes. Nos apaixonamos por pessoas diferentes de nós. Somos amigos de pessoas diferentes. Amar é acolher os outros e quem somos.

 

 

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