Arquivo | outubro 2016

E quando não inebria?

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Existem pessoas inebriantes. Aqueles que te preenchem os sentidos como um salto de pára quedas. Quase um soco no estômago. Forte e intenso, como uma boa caipirinha.

Mas, ás vezes, não inebria.

De forma suave a presença do outro te envolve. Dia a dia. Aula a aula. A palavra gentil e educada. A firmeza no posicionamento. O sorriso difícil de se revelar, o elogio discreto e sincero.

É assustador. Sem a pancada de se inebriar na pessoa, no cheiro e na presença, uma hora você se dá conta de que, em algum momento da convivência algo mudou e você não se deu conta. Sem aviso. Sem proteção. Sem salvaguardas.

De repente você olha sua estante e se dá conta que comprou livros apenas por que ele recomendou (ou escreveu). Percebe que leu trabalhos apenas por que relacionavam-se a ele. Sem se dar conta passou a manter ele em seu radar. Ali, no canto da mente, num lembrete delicado e discreto.

E em um dia sem querer, fora do lugar comum de vocês, você o olha e se dá conta do quão sexy ele é, e deseja ardentemente tocá-lo. Você pensa que talvez seja só a bebida, talvez seja só o ambiente relaxado, talvez seja só a solidão de quem está sozinha. Talvez seja tudo isso acumulado. Mas deixar o profissionalismo de lado e tocá-lo se torna mais sedutor que tudo.

Ele não é o ser mais desenvolto socialmente. Tem uma franqueza que chegar a ser rude. E uma muralha da China sobre a vida pessoal. Ele raramente relaxa.

E então você descobre que ele é macio e confortável. O tipo de homem para se deitar nos braços e falar besteira. Como um bom vinho, que se toma durante o jantar. Que ele cheira a boas lembranças. Ele não é um soco no estômago, mas um abraço envolvente onde se deseja ficar.

E é ele quem se afasta.

Hora de voltar ao lugar comum.

Quando?

Em que momento o respeito e a admiração se tornaram esse bem querer?

Quando foi que o bem querer se transformou em atração?

Dúvidas

Se tem uma coisa que se aprende em um mestrado é a duvidar.

Ninguém diz que é fácil, muito menos confortável. Mas certamente é saudável.

Duvidar daquilo que se tinha como certo, imutável. Duvidar de crenças e hábitos. É claro que como em tudo, o exagero é pernicioso. Dúvida em excesso paralisa, dúvida saudável nos impulsiona para solucionar o objeto da dúvida e evita que a mente se torne intransigente.

Duvidar nos permite manter a curiosidade, descobrir o mundo, repensar as regras e o certo. Duvidar é como um alongamento para a mente, garante elasticidade e nos mantém atualizados com o que existe ao nosso redor.

Duvidar é um respiro saudável durante um mergulho. Para mim se tornou o momento em que paro e olho ao meu redor, para ter certeza que estou no caminho que escolhi, se não preciso mudar algo ou replanejar algo.

Estranhamente, duvidar de que se está no caminho certo nos permite seguir com mais certeza e segurança rumo àquilo que se deseja.