Arquivo | abril 2014

Não quero ser filtrada!

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Eu estou cansada de filtros. Não falar tudo que quero. Não fazer tudo que desejo. Não amar tudo que posso.

Todos nós passamos a vida sendo filtrados. Uma loooonga vida de filtros. Não faça isso, não faça aquilo. Mulher não pode isso. Homem não pode aquilo. Todo mundo é cerceado, cortado, impedido de fazer isso ou aquilo. De falar uma coisa ou outra. São tantas cercas que se acumulam e chega uma hora em que tem mais cercas e muros que campo para caminhar.

Dizem que os filtros são bons. Eu não sei. Filtrar pressupõe algum tipo de impureza que não deve fazer parte do conteúdo final. O pó não deve ficar misturado ao café. E o que se faz com o conteúdo filtrado? Normalmente é lixo, seja ele orgânico ou não. O destino é o lixo. Mas onde fica o lixo do que filtramos em nós mesmos? Para onde vão todas aquelas palavras presas? Todo o amor contido? Toda a raiva represada? Para onde vai toda essa “impureza”? Nós não temos um lixo onde jogar tudo isso. E fica tudo guardado, dentro de nós. Tudinho.

O lixo vai acumulando, “fedendo”, estragando. E nós vamos ficando cada vez mais insatisfeitos com nossa vida sem nem saber o por que. Vivemos irritados com a sombra de todas as palavras não ditas que se acumulam em nossas línguas. Nos sentimos depressivos pelo amor que foi ofertado e está ali, represado, nos sufocando. Temos tiques com todos aqueles gestos e ações que se acumularam em nossos músculos, na nossa carne.

Eu sei bem que não dá para fazer tudo que se quer, nem falar tudo que nos vem a ponta da lingua. Mas e quando esses filtros se tornam tamanhos, que não conseguimos ser nós mesmos? Quando nos tornamos outra pessoa para atender todos os filtros que adquirimos ao longo da vida? O que fazer?

Boa pergunta.

Muito boa pergunta.