Fijación Oral

[Assim eu me esqueço de mim…]
Enquanto a chupo, hoje, ao menos uma vez na vida, quero que você esqueça de mim, esqueça do mundo e só pense em você. Quero que, enquanto me dedico com a língua a sua bucetinha, você seja uma puta egoísta, enquanto eu serei um puto deliciosamente servil à sua delícia. Finja que eu nem existo.

Quero lamber com o mesmo desprendimento com que, a caminho daqui, na noite morna, abri os botões da minha camisa de linho branco para tomar a brisa fresca no peito. Com o mesmo ímpeto que com passos decididos entrei e despi nós dois.

Então, procure descuidar de mim. De mim eu mesmo cuido, neste instante. Preocupe-se apenas em achar a posição mais cômoda no sofá, o jeito mais relaxado para as pernas afastadas, a distância mais natural entre os lábios entreabertos, para deixar escapar os gemidos, só aqueles que saírem sozinhos, com vida própria, sem o controle daquilo que nos faz o dia inteiro falar bobagens sem sentido. Os gemidos, que importantes nesse idioma.

Minha saliva e seu sexo façam uma sinfonia quase inaudível de visgo na mistura única de suas químicas. Seu prazer escorra para minha garganta e me alimente. Mas não quero que cuide de me alimentar, não quero que cuide de nada a não ser de você mesma. Para agora, o seu prazer é o mundo, mais dono de você que você dele, e você mais dona de mim que eu mesmo de todos os meus gestos.

Segure minha cabeça com as duas mãos, assim, como preferisse que eu estivesse todo dentro de você, a apreciar um mundo novo, Alice no País das Maravilhas, e mesmo a lua cheia que vai lá fora contornando o horizonte ficasse mais pálida diante de tais novidades. Mas ignore o que eu vejo e o que possa vir a ver. Faça como se eu estivesse cego e cego estou. Seus olhos sejam os meus olhos. Guie-me. Não. Arraste-me para seu elemento, como o peixe é arrancado violentamente da água para o ar pelo anzol que o rasga. E que eu respire: as mesmas atmosferas que passaram por seus pulmões. Compartilhe minha morte, minha vida.

Não questione se estou de pau duro ou não, se isso é bom ou ruim pra mim, se o seu gosto é gostoso para minha boca, embora eu garanta que sim, é. Se possível, despreze o que eu sinto. Se necessário, esqueça que é um homem que de joelhos, adorando-a, aqui se posta. Pense, se preciso for, numa coisa, numa coisa feita pra gratificá-la e venerá-la com esta boca, com estas mãos. Acima de tudo, não questione isso que lentamente se constrói por dentro e a que você se entrega.

Teste-me com a curiosidade cruel de quem só acredita em si mesma, de quem acredita que o universo foi feito para si e gira em torno de seu prazer. Descubra se eu sangro e se meu corpo registra marcas. Bata em mim se sentir vontade. Acaricie-me se sentir vontade. Corte-me se sentir vontade. Cuspa em mim se sentir vontade. Mas não pergunte se eu gosto. Nesses minutos não é o que eu gosto ou desgosto que interessa. Entenda que o cosmos desandaria se isso mudasse. A salvação das almas depende apenas de seu exato desejo exatamente satisfeito e qualquer coisa diferente disso seria o fim.

Com cuidado e desmazelo trilho com a língua por sua buceta – linda – e por seu cu – lindo – ora louco ora filósofo. Sou um selvagem e você precisa me domar com os calcanhares em minhas costas, pois não entendo mais palavras. Não tenha medo de machucar. Seu sabor promove-me a homem sábio. Por isso, nada me fere.

E tudo que vem de você é bom. Dê aquilo que sentir que é para dar e mesmo cicatrizes e equimoses serão ostentadas, como ornamentos, acessórios do seus caprichos, não carregados por você, mas por meu corpo, dias, semanas, meses na carne. Por dentro, para sempre.

E, finalmente, esqueça até de si mesma, como quem vira vapor e como vapor que vai ao céu, vira nuvem, chove e se dilui no oceano. Deixe que ao menos um pouco de você misture-se em mim. Até que nós dois não sejamos gente, não sejamos bicho, não sejamos coisa. Sejamos o quase nada que subentende o quase tudo que nos cerca, uma circunferência de bilhões de quilômetros que nos abarca a partir desse local improvável para ser o centro da existência, um sofá amarelo.

Nele jazem dois corpos, unidos pelo que vem da terra, passa por minha boca, atravessa todo o seu corpo e atinge o céu de estrelas, em direção a nossa própria e deliciosa perdição.

[Texto de Alessandro Martins]

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