Coração bobo

[Vem tentação… E que a fúria de Apolo não recaia sobre você e sua ousadia!]
June A

O coração quando rompe o cadeado que outrora o trancava age como um tresloucado descobridor para quem tudo é novidade, tudo deve ser provado, tocado, descoberto.
Ele machuca e se machuca sem nem se dar conta.
Tão ansioso por tudo descobrir, olha tudo e nada vê.
Ouve tudo e não absorve nada.
Toca e não sente.
Insano.
Ansioso.
Troca pés por mãos.
Atropela o tempo.
Destrói barreiras.
E corre o sério risco de, com essa ansiedade toda, assustar-se e voltar a trancar-se, amedrontado de poder sentir tanto, de maneira tão intensa.
Louquinho tenta racionalizar.
E esquece que nasceu para sentir.
Tenta, em vão, tornar-se o que não lhe é natural.
Impõe-se uma dieta de sensações que o enfraquecem, fragilizam e expõe.
Ingênuo, permite que os anos passem acreditando poder domar o que é.
Se torna o pior carrasco de si mesmo.
Sofre na pior das prisões: ele mesmo.
E sofre, e chora, se desgasta, se aflige.
E cansa.
Cansa de sofrer, de se negar, de se esconder, de não viver.
E descobre outro coração.
E se abre.
Curioso.
Devagar.
Lento.
Com medo de machucar-se novamente, mas com muito mais medo de perder a oportunidade de sentir novamente, de parar de pensar e voltar a sentir.
Usa máscaras e se desmascara.
Desejoso da intensidade que anteriormente o apavorou.
Novamente ansioso, mas agora mais cauteloso.
Ainda machuca e se machuca, mas percebe, volta, desculpa-se, perdoa.
Olha e vê. Toca e sente. Ouve e absorve.
Ainda troca pés por mãos, mas não mais destrói barreiras, agora ele as desconstrói, calmamente, lentamente.
E ele reza.
Para que seja esse o coração que ele aguardou.
Se ficarão juntos ele não sabe.
Por quanto tempo ele não tem idéia.
Não importa.
A descoberta já lhe foi libertadora o suficiente para que esse coração jamais seja esquecido.
E ansioso, ele confia.
E espera.
Silêncio.

Coração Bobo / Alceu Valença

Meu coração tá batendo
Como quem diz:
“Não tem jeito!”
Zabumba bumba esquisito
Batendo dentro do peito…

Teu coração tá batendo
Como quem diz:
“Não tem jeito!”
O coração dos aflitos
Pipoca dentro do peito

Coração-bôbo
Coração-bola
Coração-balão
Coração-São-João
A gente
Se ilude, dizendo:
“Já não há mais coração!”…

Bôbo, bola, balão
São-João
A gente
Se ilude, dizendo:
“Já não há mais coração!”

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